1. A Nova Aliança não começa em Mateus 1
A Nova Aliança não começa em Mateus 1. O próprio Jesus declarou: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue” (pegando o mesmo livro de Mateus, essa fala, que anuncia a nova aliança, só acontece lá no capítulo 26, verso 28). A bíblia é clara: sem derramamento de sangue não há aliança (Hb 9:16-22).
O Novo Testamento teve início com a morte de Cristo (Hb 9:15-17) e se cumpriu com a descida do Espírito Santo em Atos 2 (At 2:1-4,16-18), conforme profecia de Joel (Jl 2:28-29 / At 2:16-18) e as promessas do próprio Senhor Jesus (Jo 14:16-17; At 1:4-5). Cronologicamente falando, a partir de Atos 2, podemos considerar a Nova Aliança em plena vigência.
Em outras palavras, Mateus 1 é a nova aliança em preparação, o contar desta nova história, a Cruz é o ponto da virada e Atos 2, o derramamento do Espírito Santo prometido, sua consumação.
E por que isso importa? Porque ao estudar a Bíblia sem discernir as alianças, você estará ignorando um importante conselho de Paulo a Timóteo: manejar corretamente a Palavra da verdade (2Tm 2:15 – curiosidade: a tradução literal de “maneja” nesta passagem de Timóteo, seria “cortar reto” ou “dividir corretamente”).
A Bíblia inteira é a Palavra de Deus e deve ser estudada. Ela só precisa ser lida respeitando seu contexto, tendo Cristo e Sua obra consumada como as grandes chaves interpretativas.
2. A Bíblia é a Palavra de Deus, a Cruz é o filtro
Com a nova aliança em perspectiva, o estudo bíblico precisa passar pela cruz (1Co 2:2; Gl 6:14). Ela é o eixo da história, o divisor entre Lei e Graça, entre sombra e realidade, entre provisório e eterno (Cl 2:14-17; Hb 10:1-10).
Os evangelhos narram a transição: Jesus, nascido debaixo da Lei (Gl 4:4), falando, em grande parte, a judeus, também sob a Lei (Mt 15:24).
Por isso, palavras ditas sob a lei, como “se não perdoarem, não serão perdoados” (Mt 6:15) precisam ser vistas pelo prisma do que a Cruz consumou.
Na Nova Aliança, a ordem é invertida: “assim como vocês já foram perdoados, perdoem” (Ef 4:32; Cl 3:13).
Como vimos no ponto 1, quando você maneja com a sabedoria do Espírito a Palavra da verdade, fica simples notar que não há contradição entre o que Jesus disse antes e Paulo ensinou depois.
“Tá, então Deus mudou?”
Deus não muda nunca (Ml 3:6; Hb 13:8; Tg 1:17; Nm 23:19; Sl 102:27), mas Ele se relaciona com Seu povo através de alianças e estas, sim, mudam (Hb 8:13; Hb 7:12; 2Co 3:6-11; Jr 31:31-34).
Para ilustrar, não há registros de Noé praticando a circuncisão, nem de Abraão guardando o sábado. E ninguém questiona que ambos foram grandes homens de Deus, exemplos de fé!
“Ah, mas eles vieram antes da lei.”
Exatamente. É o que estamos dizendo. Era outro tipo de aliança. Já no nosso caso, viemos depois da lei (Gl 3:23-25).
Agora, volte no tempo rapidamente e imagine Noé ou Abraão vendo o povo israelita adorando e dizendo pra Moisés: “Peraí! O que você tá fazendo? Não é assim que servimos a Deus. Deus não muda.”
Percebe?
Outro fato que evidencia o que estamos estudando: você sabia que a lei de Moisés “desqualifica” Jesus para o sacerdócio? Isso porque somente a tribo de Levi poderia prestar este tipo de serviço (Nm 3:10; Nm 18:7; Hb 7:14) e Jesus, naturalmente, descendeu da tribo de Judá (Hb 7:14; Ap 5:5; Gn 49:10).
Logo, no argumento de que “Deus não muda”, por que aceitamos Jesus como nosso sumo sacerdote (Hb 4:14-15; Hb 6:20; Hb 7:26; Hb 9:11) quando a lei o desautoriza?
De novo, Deus mudou?
Note que até mesmo os perseguidores de Jesus viam distinção entre os ensinos dEle e a lei de Moisés (Jo 9:16, Jo 8:5,6, Lc 15:2, Jo 5:16-18, Mt 21:23, Mt 12 1,2, Jo 10:33).
Ora, o próprio apóstolo Paulo falou sobre isso literalmente quando disse:
‘Irmãos, se eu ainda prego que vocês devem ser circuncidados, como dizem alguns, por que continuo a ser perseguido? Se eu não pregasse a salvação exclusivamente por meio da cruz, ninguém se ofenderia. ‘ (Gl 5:11 NVT)
Podemos tentar resistir como quisermos, mas abraçamos muitos conceitos condenados pela velha aliança, o sumo sacerdócio de Cristo é apenas um deles.
E tentamos justificar com uma divisão entre lei “moral, cerimonial e civil”, que não aparece em nenhum lugar da Bíblia, nem mesmo na tradição judaica. Surgiu séculos depois! Não, o Antigo e o Novo Testamento tratam a lei de Moisés como um todo, ligado à aliança, de modo que quem tropeça em um só ponto – seja ele qual for – se torna culpado de todos (Tg 2.10, Gl 5:3, Dt 27:26, Gl 3:10, Lc 16:17).
Dá pra ser mais simples! As contradições somem e tudo faz sentido quando simplesmente nos rendemos ao que diz a Palavra: “mudando o sacerdócio, muda-se a lei” (Hb 7:12).
“Mas Jesus disse que não veio mudar a lei, veio cumprir!”
De novo, a importância do contexto: isso foi dito debaixo da velha aliança. Segundo, Ele realmente não mudou a lei de Moisés, mas trouxe uma Nova Aliança, com novos mandamentos (Jo 13:34, Hb 7:12, Hb 8:12,13). E, terceiro: sim, Ele veio cumprir a lei e a cumpriu (Lc 24:44; Mt 5:17; Rm 10:4; Ef 2:15; Cl 2:14; Rm 7:6; Gl 3:24-25; Gl 5:18; Hb 7:18-19; Hb 8:13; 2Co 3:11).
É muito simples de entender: nenhuma glória para nós. Toda glória para Ele!
Na nova aliança, tudo o que fazemos é uma resposta ao fato dEle nos ter amado primeiro (1Jo 4:19). É uma aliança superior, sem falhas, porque não há participação de ser humano pecador algum em estabelecê-la (2Co 5:19, Hb 8:6-13; Hb 7:22; Hb 9:11-12; 2Co 3:9-11; Jr 31:31-34, Ez 37:26, Hb 10:16,17).
Não vivemos do “ainda não”, mas do “feito está!” (Jo 19:30).
3. O Espírito Santo não nos deixa
A Nova Aliança não é de letras gravadas em pedra, mas do Espírito que vivifica (2Co 3:6-8). A letra que mata (2Co 3:6) é a do legalismo, não do conhecimento. Inclusive, Paulo repetidamente ora por conhecimento e sabedoria (Ef 1:17; Fp 1:9; Cl 1:9), e o próprio Jesus reforçou: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32).
No ministério do Espírito, ninguém foi chamado para a ignorância, pelo contrário, para astúcia e prudência (Mt 10:16; Pv 8:12; Ef 5:15-17; Cl 4:5), análise (Mt 7:16-20; Mt 12:33; Ap 2:2; 1Jo 4:1; At 17:11; 1Co 14:29; 1Ts 5:20-21; 1Co 6:3) e o estudo da Palavra (Hb 4:12; 2Tm 2:15; 2Tm 3:16-17; Js 1:8; Sl 119:105).
A ignorância e ingenuidade são prisões diabólicas (2Co 4:4; Os 4:6; Pv 5:23; Is 5:13; Ef 4:18). O conhecimento da verdade de Deus liberta (Jo 8:32; Jo 17:17; 1Tm 2:4; Tt 1:1).
O Espírito Santo é o penhor da nossa herança (Ef 1:13-14), o Selo da promessa (2Co 1:21-22), o Consolador que nos lembra da obra perfeita de Cristo (Jo 14:26).
Como Jesus prometeu, Ele não entra e sai de nós.
Uma vez nascidos de novo, não precisamos clamar que Ele venha nos visitar ou que suba e desça, como um elevador. Ele é Deus em nós e habita em nós para sempre (Jo 14:16-17; 1Co 3:16; 1Co 6:19; 2Tm 1:14; 1Jo 2:27; 1Jo 4:13).
Aos coríntios, por exemplo, que conviviam com problemas de imoralidade que “nem entre os pagãos era vista” (1Co 5:1), Paulo disse: “vocês esqueceram que o corpo de vocês é templo do Espírito Santo?” (1Co 6:19).
Observe o tempo presente: o corpo não era templo do Espírito… ele é.
Outro detalhe importante: observe o modelo de exortação de Paulo. Ele não passa a mão na cabeça daquela igreja; pelo contrário, reforça como o pecado é destrutivo. Porém, desejando ver frutos melhores, em vez de apresentar uma lista de regras, ele aponta para a raiz do problema: mentalidade.
Vamos ler juntos:
“Será que vocês não sabem que o seu corpo é a morada do Espírito Santo que Deus lhes deu? Seu próprio corpo não lhes pertence. Porque Deus comprou vocês por preço elevado. Portanto, glorifiquem a Deus com o seu corpo.” (1Co 6:19,20 NBV-P)
Essa é uma passagem muito poderosa e profunda em diversos sentidos.
Um deles é este: as expressões “esquecer” ou “não saber” são apelos que se dirigem à mente, e não simplesmente às obras.
Isso nos leva ao argumento seguinte…
4. O arrependimento acontece na mente
Jesus, em Sua incomparável sabedoria, já explicou o caminho: “Limpa primeiro o que está dentro do copo e do prato, para que o lado de fora seja limpo também.” (Mt 23:26)
A palavra original para “arrependimento” é “metanoia”, que significa “mudança de mentalidade”. A Bíblia é clara: a lei é perfeita, santa, justa e boa. O problema é o que a carne faz com a lei (Rm 7:10-14, Rm 5:20).
Por isso, não vivemos sob o sistema de bênçãos e maldições condicionadas a uma lista de regras (que serviu de tutor / guia, até que Cristo viesse – Gl 3:24, Gl 3:10-13, Tg 2:10), mas cremos na competência total do Espírito Santo para produzir em nós toda boa obra (Ef 2:10; Fp 2:13).
É pelo Espírito que se mortifica as obras da carne (Rm 8:13), não pela força do próprio braço. Tentar se aperfeiçoar pela carne é literalmente chamado de esforço inútil na nova aliança (Gl 3:3; Cl 2:20-23).
E, se você der uma atenta olhada ao redor, verá muito isso: pessoas genuínas na fé, que realmente estão querendo romper com ciclos destrutivos. Fazem votos, atos proféticos, confissões, muitas vezes públicas, mas jamais rompem de forma consistente.
De novo, o fruto é do Espírito, não nosso (Jo 15:5, Gl 5:22,23, Ef 2:10).
Se você é uma pessoa que não consegue viver a vida que Deus tem para você, a melhor vida, apesar de já crer em Jesus Cristo há um bom tempo, há uma grande chance de você estar apenas querendo manifestar a coisa certa pelo método errado.
(E tolice é tentar as mesmas coisas esperando por resultados diferentes, não é mesmo?)
Um choro, um grito, uma confissão, uma humilhação, um voto ou seja lá o que for, sem renovação de mente não é arrependimento, é apenas remorso (metamelomai).
Parece que não, mas na hora da aplicação prática, a nossa cultura cristã costuma confundir bastante os dois conceitos.
5. O perdão de Deus não vem em conta-gotas
Não há perdão parcial, condicional ou por performance. Na cruz, Cristo ofereceu um sacrifício “de uma vez por todas” (Hb 10:10-14). “Todas” implica tudo, o que obviamente inclui nossos pecados passados, presentes e futuros, todos colocados sobre Ele (Cl 2:13,14; 1Jo 2:12, Is 53:5, Hb 10:18, Rm 5:1, Rm 8:1-3).
Na Nova Aliança, Deus declara: “dos seus pecados e iniquidades não me lembrarei jamais” (Hb 10:17; Jr 31:34). Cristo, que é o sacrifício perfeito e definitivo, se sacrificou uma única vez e assegurou isto (Hb 9:23-28).
Qualquer doutrina que exija confissões ou sacrifícios extras para alcançar perdão ou garantir salvação, ainda que sem intenção, nega a suficiência do sangue de Cristo (Ef 1:7; Hb 9:12,14,22; Hb 10:10,14,18; Rm 3:24-25; Cl 2:13-14; 1Jo 1:7).
Além disso, há uma questão lógica: você descobriu o perdão da cruz de Cristo pelo menos dois mil anos depois dele ter, de fato, acontecido. Não faz sentido crer que o perdão de Jesus só alcance uma data específica e, a partir daí, dependa de nós. Faz?
Não! Seu Sangue é precioso, poderoso e suficiente para perdoar não só os nossos pecados, como os do mundo inteiro (1Jo 2:2), de geração em geração, para sempre.
Toda honra e glória somente ao Cordeiro que foi morto e ressuscitou (Ap 5:12)! Sim, todo mérito para Ele, nenhum mérito para nós.
Ah, mas e 1Jo 1:9?
Essa passagem precisa ser lida em contexto. Dois versículos antes dela, está escrito: “o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado” (1Jo 1:7). Veja: o sangue purifica, não a confissão. Dois versículos depois: “se alguém pecar, temos um Advogado… ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2:1-2). Novamente, Cristo é nossa propiciação, não uma combinação de palavras nossas.
Inclusive, ali, o termo “confessar” (homologeo) significa “concordar”. É, basicamente, sobre reconhecer nossa necessidade de salvação.
O perdão não é frágil, nem liberado em doses homeopáticas, através de confissões intermináveis. Ele nos é garantido “de acordo com as riquezas da graça de Deus” (Ef 1:7). É superabundante (Rm 5:20).
Nosso Pai é rico em misericórdia! Seu fogo consumidor recebeu o sacrifício do Único Justo (1Pe 3:18; Is 53:10; Hb 10:10,12) na Cruz para que nós, que estávamos condenados, fôssemos justos nEle (2Co 5:21; Rm 5:19; Fp 3:9; 1Co 1:30)!
Cristo entrou no céu de “uma vez por todas para aniquilar o pecado mediante o sacrifício de si mesmo” (Hb 9:26).
Seu sangue não é como o dos animais da velha aliança, que precisava ser oferecido repetidamente (Hb 9:13-14). Seu sacerdócio não é como o da antiga aliança, que precisava de sacrifícios repetidos todos os anos, mediante uma série de ritos, para ter validade (Hb 7:27, Hb 9:25-26, Hb 10:1-4, Hb 9:7).
Pense comigo: se a salvação dependesse de confessar cada pecado, quantos milhares de crentes morreram perdidos, sem ter tempo de confessar alguma coisa?
Além disso, se essa doutrina fosse tão fundamental, por que aparece apenas neste versículo único em toda a nova aliança?
Lembre-se de que não havia ainda a compilação da Bíblia. Por que as outras igrejas ficariam sem o registro de uma informação tão fundamental quanto essa?
Confissão de pecados para receber perdão tem uma aparência de humildade, mas, de novo, é apenas uma tentativa do ego humano de se tornar parte merecedora do favor imerecido de Deus.
“Confessar faz as pessoas pararem de pecar por vergonha!”
Muito pelo contrário. Consciência de pecado, vergonha, só colabora para te perpetuar em um estado destrutivo, de derrota (Hb 10:1, Rm 6:14, 1Co 15:56, Rm 7:7-10). A Bíblia já alertava e boa parte da ciência contemporânea* já concorda com este conceito.
*A ciência comportamental valida o perigo desse ciclo de derrota: a psicologia estabelece que a propensão à vergonha (shame-proneness) é uma emoção destrutiva que, ao contrário da culpa adaptativa, foca na identidade (“Eu sou o erro”). Essa internalização está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento de uma série de psicopatologias, incluindo depressão e ansiedade (Tangney et al., 1992, Link para o resumo na APA PsycNet). Em vez de motivar a correção, a vergonha alimenta a retração e o isolamento, sendo um fator-chave na exacerbação de traumas e na correlação positiva com o abuso de substâncias e vícios, atuando como catalisador do uso e uma significativa barreira à recuperação (Dearing & Tangney, 2011, Link para o capítulo na APA Books)
6. É impossível um filho de Deus ser amaldiçoado
Na cruz, Jesus se fez maldição em nosso lugar (Gl 3:13; 2Co 5:21). Não há “brechas” (inclusive, este é um conceito muito mais cultural do que bíblico)!
Toda a cédula de dívida foi cancelada (Cl 2:14-15; Ef 2:15-16) e poder algum do maligno tem autoridade sobre nós (1Jo 5:18; Cl 1:13; Lc 10:19). Não há mais “correntes” espirituais para quebrar. Quem o Filho libertar será verdadeiramente livre (Jo 8:36; Rm 8:2).
Desfrutamos da liberdade conquistada e garantida por Cristo (Gl 5:1; 2Co 3:17).
Qualquer doutrina que exija ações extras para “quebrar maldições”, ainda que sem intenção, nega a Palavra de Deus quanto à nossa identidade (2Co 5:17; Ef 1:3-6; 1Pe 2:9).
Poderia Cristo ser maldito, possuído ou humilhado por Satanás? (1Jo 4:4; Jo 14:30; Cl 2:15)
Logo, por estarmos nEle, nós também não podemos (1Co 6:17; Gl 2:20; Cl 3:3; Rm 8:1).
7. O esforço pela benção é uma forma de escravidão
Nada que você faça mudará o amor de Deus ou Suas bênçãos sobre você(Ef 1:3; Rm 8:38-39; Ef 2:8-9; Tt 3:5; Rm 11:6). Tudo é graça. Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas (Rm 11:36; 1Co 4:7; Tg 1:17).
Deus é aquele que está com você na calmaria e também é aquele que segura a sua mão no meio da tempestade. Olhar para um mundo transitório e perecível, onde a chuva cai sobre justos e injustos (Mt 5:45; Ec 9:2), para tentar explicar o amor e o cuidado de Deus é perder perspectiva do que Ele já fez para provar Seu Amor por nós (Rm 5:8,9; Jo 3:16; 1Jo 4:9-10).
E esse “materialismo da fé” só reforça uma hipervigilância que adoece e tira completamente nossa consciência de Cristo. É uma lógica muito simples de entender: nosso cérebro não consegue pensar em duas coisas simultaneamente. Se estou mentalizando o que preciso fazer, crer ou dizer para acessar / receber algo dEle, estou consciente de mim, não dEle.
E não se engane: a perseguição pelo “ter” é um dos maiores sufocadores da mensagem pura do Evangelho em um coração (Mt 13:22, 1Tm 6:9-10).
Não à toa, o próprio Jesus alertou seus discípulos sobre o fermento de Herodes. Herodes era imoral, corrupto, desesperado pelo poder. Um homem que estava entusiasmado para ver Jesus operar um milagre na sua frente (Lc 23:8,9).
Os frutos desse tipo de crença são evidentes: ansiedades, inconstâncias, confusão, medo, depressão. Casamentos em crise. Irmãos sinceros, porém carregados por todo vento de doutrina (Ef 4:14), pra lá e pra cá, prejudicando ainda, nesse processo, as pessoas ao seu redor (o que a Palavra não chama de “andar por fé”, pelo contrário, chama de “negar a fé” – 1Tm 5:8).
Me diga: você consegue ver Seu Pai Amoroso tendo parte com isso (1Jo 4:18, 1Co 14:33, Mt 7:9-11)? Esse fruto parece ter alguma parte com o Espírito Santo de Deus (Gl 5:22) ou são evidências mais semelhantes com as obras da carne (Gl 5:19-21)?
“Fé é você colocar o pé e Deus colocar o chão” só encontra paralelo bíblico com a tentação que satanás aplicou a Jesus no deserto (Mt 4:6).
A mentalidade de troca, de barganha, é herança legalista e pagã/mística (Mt 6:31-32; Lc 12:29-30, Mt 4:8-9) disfarçada de espiritualidade (Gl 3:1-3; Gl 5:1-4; Cl 2:18-23). Ela encontra no desespero de um coração aflito adubo e cresce a cada dia, ao ponto de deixar a mente completamente cauterizada (1Tm 4:2) e arrogante demais para perceber que se perdeu da rota (Mt 13:22, Tg 4:6).
Na superfície: aparência de fé, espiritualidade elevada e visão. Na essência: falta de confiança em Deus, medo, desespero e necessidade de controle (Cl 2:18; Lc 12:25-26; Mt 23:27-28; Ap 3:17; 1Co 13:1-3; Mt 15:8-9; Gl 6:3).
Não! Cremos que apenas uma coisa é necessária e ela é a melhor parte (Lc 10:42). Cremos no prometido (e verdadeiro) jugo suave e fardo leve (Mt 11:28-30).
Cremos que qualquer interferência humana no evangelho puro, por menor que seja (ou por melhor que seja a intenção), tem potencial de sufocar completamente o descanso e a segurança que Ele colocou em nossos corações (Mt 16:6-12; Mc 8:15; Lc 12:1; Gl 5:9; 1Co 5:6-8; Mt 9:16-17; Rm 7:6; Gl 5:1-4; Mt 15:9; Mc 7:7-13; Cl 2:16-23; 1Tm 4:1-3; Tt 1:14, Mt 23:15).
Não fomos chamados a nos preocupar (ocupar mentalmente / previamente) com nada (Lc 12:25-26)! Lembre-se de que até mesmo a própria fé é desenvolvida por ouvir somente Cristo (Rm 10:17; Gl 3:2; Gl 3:5; Mt 17:5; Mc 9:7; Lc 9:35) e Ele próprio é criador e aperfeiçoador da nossa fé (Hb 12:2; Fp 1:6; Ef 2:8).
Além disso, tamanho de fé nunca foi problema para viver o extraordinário (Mt 17:20; Lc 17:5-6, Jo 20:29).
Ficamos inativos, então? De forma alguma (Rm 6:1-2; Tg 2:17)! Como bem disse um pregador internacional que ouvi: graça não é inatividade, mas atividade dirigida pelo Espírito Santo (1Co 15:10; Gl 5:16-18; Fp 2:12-13; Ef 2:10; Tt 2:11-12).
Em resumo, cremos que qualquer tentativa de agir (seja a ação qual for) para receber algo de Deus é consciência de escravo (Rm 4:4).
Se ver amado, aceito e abençoado incondicionalmente (e independentemente de circunstâncias momentâneas – Fp 4:7, Jo 14:27) é privilégio de filho (Rm 4:4-8; Gl 4:7; Ef 1:3; Rm 8:15; Gl 4:21-31, Rm 8:32, Sl 127:2).
8. A salvação é eterna e irrevogável
Não conquistamos a salvação por esforço humano, portanto não podemos perdê-la por esforço humano (Ef 2:8-9; Jo 5:24; Jo 10:28-29; Rm 8:38-39).
A única passagem que alguns usam para questionar isso é Hebreus 6:4-6, dirigida a judeus perseguidos. O termo “parapipto” significa desviar-se deliberadamente da fé, não é sobre perda por obras, mas abandono consciente da crença.
Sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mc 3:29,30), de novo, precisa ser lida em contexto, porém, já adianto: quem se preocupa com ela certamente não a cometeu.
Cristo nos trata como livres para escolher. Ele perguntou aos discípulos: “vocês também não querem me deixar?” (Jo 6:67), mas prometeu: “dos que o Pai me deu, nenhum se perderá” (Jo 6:39).
9. Não sou o que faço, mas o que Ele fez de mim
A graça não traz apenas perdão, é identidade. Não somos definidos pelo que fazemos, mas pelo que Cristo fez por nós (2Co 5:17).
Não há respaldo bíblico para sermos chamados de pecadores ou miseráveis. O “miserável homem que sou” de Romanos 7:24 é respondido nos dois versículos seguintes com a vitória em Cristo.
Nenhuma saudação ou referência às igrejas, nem mesmo à problemática Corinto, usa termos como “pecadores” ou “perdidos” para se referir aos filhos de Deus. Veja por si! São sempre “santos” (Rm 1:7; 1Co 1:2; 2Co 1:1; Ef 1:1; Fp 1:1; Cl 1:2), “santificados” (1Co 1:2; Jd 1:1), “justificados” (1Co 6:11), “amados” (Rm 1:7; Cl 3:12; 1Ts 1:4; Jd 1:1), “eleitos” (Cl 3:12; 1Pe 1:1-2), “fiéis” (Ef 1:1; Cl 1:2).
Pense comigo: Deus não habita lugares impuros (2Co 6:16-17; Is 52:11; Hc 1:13) e habita em você (1Co 3:16; 1Co 6:19; 2Co 6:16; Jo 14:23), logo, não há mais impureza em você, Ele te limpou (1Co 6:11; Ap 1:5; Hb 10:22; Tt 3:5; 1Jo 1:7).
Da mesma forma, Deus odeia a hipocrisia (Mt 23:28; Is 29:13; Lc 12:1; Tg 3:17), então, quem diz que somos pecadores miseráveis, mas ao mesmo tempo pede que andemos como santos, não estaria incentivando um comportamento hipócrita? Um fingimento?
Deus iria pedir uma encenação de santidade de nós? De verdade?
O processo não é de fora pra dentro, mas de dentro pra fora. Quem disse isso foi o próprio Jesus, acusando a hipocrisia dos religiosos: “Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo.” (Mt 23:26; ver também Mt 23:25-28; Lc 11:39-40).
Nossas ações, pensamentos, tudo isso muda constantemente, o que Ele fez por nós, não.
“…vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus.” (1Co 6:11)
A Nova Aliança nos alerta: jamais nos consideremos segundo a carne, mas segundo o que Cristo fez de nós (2Co 5:16-17).
Como é bom saber que algo concluído, imutável, nos define! Quanto mais descubro quem agora sou, mais ando, naturalmente, como agora sou.
Este é o único jeito onde a nossa “mão direita dá e a esquerda não percebe” (Mt 6:3) ou, depois de fazermos o bem, na eternidade, diante de Cristo, perguntarmos: “Mestre, quando fizemos todas essas coisas boas?” (Mt 25:37-39)
Zero consciência de mim. 100% de consciência dEle.
Isso é arrependimento bíblico. Metanoia.
10. A igreja é um organismo, não uma organização
Acreditamos que a igreja é exatamente o que a bíblia diz que ela é: o Corpo de Cristo e cada um de nós somos membros deste corpo (1Co 12:27, Rm 12:4,5).
A igreja, ou seja, pelo menos duas pessoas reunidas em nome de Cristo (Mt 18:20), pode ser encontrada em templos religiosos, salas comerciais, casas, praças públicas, onde for, no dia que for, exatamente como acontecia originalmente (At 2:46; At 1:13-14; Rm 16:5; At 12:12; At 17:17; At 20:7).
“Desigrejado”, então, não é aquele que não vai a um determinado endereço se reunir de uma determinada forma.
É simplesmente o que abandonou a prática de congregar (Hb 10:24,25), de caminhar junto com irmãos de fé, servindo uns aos outros e edificando uns aos outros em amor (Ef 5:15-21).
A mulher samaritana, que discutiu com Jesus sobre onde seria o lugar certo de adorar, ouviu dele que a questão não era “ser aqui” ou “ser ali”. Isso já estava virando coisa antiga (Jo 4:20-24).
Faz sentido 2.000 anos depois repetirmos aquela mesma discussão?
O tempo da adoração em Espírito e em verdade já começou (Jo 4:23-24; Fp 3:3; Rm 12:1; Hb 13:15; 1Pe 2:5; Ef 5:18-20; Cl 3:16-17; 1Co 14:15).
11. O nosso compromisso
Nosso compromisso é viver, anunciar e defender a mensagem da graça radical. A cruz é suficiente (Cl 1:20). O sangue é suficiente (Hb 9:12). O Espírito é suficiente (2Co 3:6).
Quando houver dúvida, olhamos para o filtro da cruz e para os ensinos apostólicos, puros e diretos da Nova Aliança (At 2:42; Ef 3:2-6). Rejeitamos a mistura entre Lei e Graça (Jo 1:17, Gl 5:4, Rm 6:14), entre sombra e realidade (Cl 2:16-17), entre performance e fé (Gl 2:16).
12. A nossa confissão
Declaramos que:
O perdão é total, irrevogável e eterno (Hb 10:17-18).
O Espírito habita em nós para sempre (Jo 14:16-17).
A salvação é segura, porque não depende de nós (Jo 10:28-29).
A vida cristã é obra do Espírito, não do esforço humano (Gl 5:25).
Não há mais condenação para os que estão em Cristo (Rm 8:1).
A Graça é radical porque não deixa espaço para o mérito humano (Ef 2:8-10). A Graça é escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1Co 1:23) porque é ofensiva à lógica da religião. A Graça é maravilhosa porque é o próprio Cristo em nós, a esperança da glória (Cl 1:27).